sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Papos pela YB: ALÊ SIQUEIRA



Alê Siqueira é o homem por trás do som de vários discos legais de vários artistas de vários estilos. Talvez você já tenha batido o olho no nome dele no encarte de algum álbum do Tom Zé ou do Arnaldo Antunes, de algum CD cubano ou caboverdeano, talvez até algum trabalho erudito ou quem sabe ainda no disco do Tribalistas. Com sua produção segura e a sonoridade natural que sempre revela, não à toa ele é o primeiro nome a surgir como opção nas agendas de um monte de gente atrás daquele produtor que vai achar aquele som certo.

Depois de uns bons anos morando na Bahia, Alê voltou há pouco para São Paulo e aqui segue com sua dose de projetos interessantes. Aqui onde? Alê montou sua base de operações em um cafofo exatamente sobre o Estúdio A, dentro da YB: "O trabalho de produtor é solitário; aqui é uma exceção". Aproveitei o encontro entre um café e alguma finalização e sentei pra bater um papo com Alê sobre seus trabalhos como produtor. Altas histórias.

*

Você começou a tocar cedo?

Comecei a tocar violão com uns seis anos, violão do meu avô, da minha mãe. Na minha família todo mundo toca, mas tudo amador, não tem um profissional. Comecei bem novinho e com sete meu avô me deu um violão, fez uma prestação. Eu já tocava de molequinho, já sabia de olhar os outros tocando, dois dedinhos aqui e dois ali, aí eu comecei a estudar. Comecei cedo no conservatório, acho que com sete anos.

E quando você começou a produzir?


Tem uma coisa muito doida, eu sempre brinquei de produção. Tinha uns moleques na rua e a gente fazia trilha de filme de terror, pegava as fitas cassetes e gravava, ficava dando porrada no piano da minha mãe. (risos) Só depois de mais velho fui sacar que de certa maneira já brincava de produção ali. Meu lance sempre foi produção mais do que ser um músico performático, de tocar em banda. Toquei numas bandinhas por aí, mas meu barato sempre foi estúdio.

Quando tinha uns 12 anos, toquei guitarra com os Velhas Virgens (risos). Conhecia o povo do conservatório. Mas aí eu saí porque não podia tocar, minha mãe não deixava. Os caras tudo tinham 19 anos e eu tinha 12.

As primeiras produções sérias mesmo vieram quando?

Meu pai é escritor de livro didático e, quando eu tinha uns 13 anos, começou a jogar uns trampos na minha mão. Ele fazia uns livros paradidáticos pra Editora Nacional, que iam com fita cassete, e falou: "começa a fazer umas músicas e a gente começa a produzir essas fitas". Eu tinha uma bandinha no conservatório e chamava os caras pra tocar pra fazer as fitas. Nessa época eu já tinha o impulso, pulava na frente de todo mundo: "Eu que vou produzir!" Ninguém tinha saco mesmo e ficava eu brincando de dirigir. Aí foi ficando sério, com 16, 17 anos já produzi um monte de coisa. Repeti o primeiro colegial por causa de estúdio, já passava as madrugadas gravando.

E depois do conservatório?


Sou formado em composição e regência pela Unesp. E na época da faculdade trabalhei uns cinco, seis anos com música erudita. Olha a loucura: naquela época foi montado um estúdio na faculdade Santa Marcelina, em parceria com a Unesp, mas não tinha ninguém pra cuidar daquele negócio além do diretor artístico. E eu, como eu tinha experiência de estúdio e era aluno da Unesp, fui efetivado, com carteira assinada, pra produzir toda a obra eletroacústica de lá - na época era um estúdio de vanguarda. Conheci o Pierre Boulez, uma galera punk. O Flô Menezes foi um dos meus mestres, ele realmente é genial. Trabalhei com esse povo um tempão, fiquei na música erudita até uns 25 anos.

Você se sente muito ligado a isso?

Ah, cotidianamente. Desde o know-how que adquiri como profissional, trabalhando com os caras, até o que aprendi como aluno, na sala de aula, discutindo a Teoria da Unidade do Tempo Musical do Stockhause, o Tratado dos Objetos Musicais do Pierre Schaeffer. Isso de alguma forma moldou muito meu pensamento, na teoria e na prática também. Os caras meteram a mão na massa.

Como você foi se envolvendo com música popular?

Fiquei um tempo fazendo as duas coisas, trabalhei bastante com música de orquestra, coisas mais tradicionais do erudito, não só de vanguarda. Mas foi um processo muito natural voltar pra música popular. Montei um estúdio em casa, o que não era comum na época, e comprei um dos primeiros pro-tools do Brasil. Quando montei esse estúdio começou a rolar muito trabalho com Wisnik, Tom Zé, Arnaldo, Paulo Tatit, essa galera foi me chamando pra voltar pra música popular. Um pessoal meio na fronteira, que às vezes não dá muito pra dizer se é popular ou erudito.

Conheci esse pessoal por amigos em comum entre o povo da música erudita e virei produtor das coisas mais malucas deles, fronteiriças. Antes de produzir um disco de carreira do Arnaldo produzi vários projetos underground dele - trilha pra instalação do Tunga, pro Grupo Corpo, composições verbais a partir de poemas pra um livro chamado Dois ou Mais Corpos.


Quais foram os discos mais marcantes que você fez nessa época?

Teve o Do Cóccix Até o Pescoço, da Elza Soares. São Paulo Rio, do Zé Miguel Wisnik. Ultrapássaro, do Dante Ozzetti. Jogos de Armar, do Tom Zé. Esses projetos paralelos maravilhosos com o Arnaldo. Com o Zé Miguel, fizemos uma instalação no ArteCidade, fomos até parceiros de composição.

Você só recentemente voltou da Bahia. Como foi de você ir pra lá?

O Arnaldo me chamou pra fazer o Paradeiro e fomos gravar lá, foi quando eu conheci o Brown. E conheci a Bahia e falei, "Ah, vou ficar aqui". (risos) E radicalizei: morei um tempo em Salvador e depois fui morar pra lá de Arembepe, Barra do Jacuípe, litoral norte. Nunca tinha morado fora de São Paulo, agora tenho até filho baiano. Fiquei acho que uns cinco anos por lá. Voltei por causa de família, mas vou de novo.

E você continuou toda sua produção lá?

Vendi tudo que tinha no meu estúdio aqui e fiquei gravando muito no estúdio do Brown. Ficava lá mais ou menos como aqui na YB: não sou sócio, não sou funcionário - estou aqui.

Foi nessa época que rolou o Tribalistas?

Nessa época do Paradeiro a Marisa foi pra lá ficar uns dias e eles iam compondo nos intervalos, na casa do Carlinhos. A princípio não tinha nada a ver comigo, mas fui meio testemunha de algumas composições. Eles foram amadurecendo o projeto e depois quiseram me chamar pra produzir. Foi uma experiência muito legal musicalmente. E ninguém esperava que fosse fazer o sucesso que fez, foi uma surpresa pra todo mundo. E depois a Marisa me chamou pra fazer o Infinito Particular.

E depois de todo esse tempo, com todas essas referências e trabalhos diferentes, as coisas mudaram?

Hoje em dia nada me assusta. Já fiz tanta loucura... No bom sentido, claro, porque adoro. As coisas que mais gosto de participar são as coisas diferentes, originais. Coisas nas quais eu posso intervir mais. Em alguns trabalhos você é só organizador das idéias alheias, que também gosto muito. Mas quando você pode participar mais efetivamente da criação é legal.

Pensando nos discos todos que você produziu até hoje, dá pra ver qual o seu diferencial, sua "marca"?

Acho que o principal é essa coisa camaleônica de atacar em qualquer área. E por vontade mesmo. Ano passado eu fiz Orquestra Sinfônica Brasileira, terminei disco da Mayra Andrade, que é caboverdeana, e do Carlos Núñes, que é galego e faz música celta. E fiz um monte de coisa em Cuba, com o pessoal do Buena Vista. E Wisnik, Arnaldo Antunes, Tribalistas. Chega a ser quase esquizofrênico. (risos) Talvez seja um diferencial, a não-especialização. Eu não tenho expertise em nada, e nem quero ter. Não sei fazer nada mas gosto de fazer tudo, então pode me chamar pro que for.

*

Na foto, Alê e Mayra Andrade, daqui.

3 comentários:

ksn.producoes disse...

Ale, recorda-se de sua participação na Banda De Repente, Beto Santos S.O.S. Moçambique, é isso ai cara, tive o prazer de tocar com vc em alguns festivais, isto em 87 +ou-, fico feliz por seu sucesso.
Nelsinho Lima
Batera/Percussão

Admilson disse...

oi amigo tdb aqui e mano-milsao como ta bom feliz naltal e ta mais vou deicha meu numero 45442267 e so liga

Rodrigo Mouraes disse...

Olà Alê, nao sei se voce se lembra estivemos juntos em Cuba quando voce produzia o Cd da Omara! Voce e o Swami,..eu estava là estudando , e na època não caiu minha fixa que voce éra o cara...rs...parabem parceiro gostaria de poder manter contato e conhecer teus novos trabalhos..se puder me manda um e mail...rodrigomouraes@hotmail.com

Abraço

Rodrigo Mouraes